Geriatras alertam que irritabilidade, agressividade e alterações de humor, quando persistentes, devem ser investigados
Nas últimas semanas, episódios de impaciência do cantor Roberto Carlos repercutiram na imprensa e nas redes sociais. Hoje com 84 anos, o “Rei” mostrou estar com o pavio curto para situações que prejudicam suas apresentações – desde a movimentação de um fotógrafo até as conversas do público durante o show. E ele próprio já reconheceu que, com mais idade, ficou menos tolerante a esses incômodos, que parece encarar como sinais de desrespeito a seu trabalho.
Pode ser que, a essa altura, a disposição de “engolir sapos” realmente tenha diminuído. Ainda mais no caso dele, que já admitiu publicamente ter diagnóstico de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), que se manifesta em manias, como a aversão a certas cores, caso do marrom e do preto, e a necessidade de rituais de higiene. Mas essa aparente mudança de comportamento andou suscitando também outros debates – inclusive, tentar entender até que ponto mudanças de comportamento em pessoas idosas podem ser entendidas apenas como “coisa da idade”.
De fato, segundo especialistas em geriatria, agressividade repentina, irritação persistente, impulsividade, apatia ou perda de filtros sociais não devem ser automaticamente normalizadas – evidentemente, sem falar especificamente sobre o caso do cantor, mas, sim, a partir de um quadro geral.
A médica geriatra Elen Cristina da Mata, por exemplo, ressalta que, ao contrário do senso comum, envelhecer não significa, necessariamente, tornar-se mais ranzinza, intolerante ou emocionalmente instável. “Mudanças significativas de comportamento, humor ou personalidade não são consideradas normais do envelhecimento”, indica.
Ela explica que o envelhecimento saudável pode trazer adaptações naturais – como maior lentidão, necessidade de mais organização ou pequenas dificuldades cognitivas –, mas não costuma provocar “irritabilidade persistente, agressividade, impulsividade ou perda de empatia”. Na prática clínica, o que acende o alerta é o afastamento claro do padrão de vida anterior. “Avaliamos quando essas mudanças começaram, se são progressivas e se trazem impacto funcional”, assinala Elen que é mestre em ciências da saúde e docente na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Em muitos casos, prossegue, essas alterações são o primeiro – e às vezes o único – sinal inicial de doenças cognitivas ou transtornos do humor.
A geriatra Simone de Paula Pessoa Lima, da Saúde no Lar (empresa voltada à qualidade da assistência prestada e ao bem-estar), reforça que a principal ferramenta para diferenciar o que é esperado do envelhecimento do que é patológico é a observação do histórico da própria pessoa idosa. “O envelhecimento pode trazer certo retraimento social ou leve esquecimento benigno. No entanto, mudanças abruptas ou progressivas no humor, na interação social, no juízo crítico ou na funcionalidade levantam suspeitas”, examina, frisando que isolamento repentino, atitudes socialmente inadequadas ou abandono de atividades habituais não devem ser ignorados.
Esses comportamentos, segundo as especialistas, podem estar associados a uma ampla gama de condições. Quadros demenciais – como a doença de Alzheimer ou a demência frontotemporal – estão entre as hipóteses mais conhecidas, mas não são as únicas. Também entram no radar a depressão, os transtornos de ansiedade, os delírios e a exacerbação de condições psiquiátricas prévias. Além disso, há causas clínicas potencialmente reversíveis que precisam ser investigadas antes de qualquer conclusão.
Investigação
Elen explica que, no atendimento médico, ao atender pacientes idosos com quadros de mudança de comportamento, “o primeiro passo é sempre descartar causas clínicas”. Ela ressalta que infecções urinárias, desidratação, constipação, dor crônica mal controlada e distúrbios do sono são condições comuns no envelhecimento e que, muitas vezes, se manifestam de forma atípica – não com dor localizada ou febre, mas com confusão, agitação ou irritabilidade. Por isso, a investigação inclui exames de imagem do cérebro, exames laboratoriais para avaliar funções metabólicas, deficiências vitamínicas e até infecções como a sífilis.
Outro fator frequentemente subestimado são os efeitos colaterais de medicamentos. Idosos costumam fazer uso contínuo de várias drogas, muitas delas com impacto direto no sistema nervoso central. “Antidepressivos, ansiolíticos, anticonvulsivantes e até medicamentos para dor, tontura ou náuseas podem provocar confusão mental, sedação excessiva ou piora da irritabilidade”, alerta Elen da Mata.
Simone, por sua vez, complementa que benzodiazepínicos, antipsicóticos e até alguns anti-hipertensivos podem desencadear quadros de agitação ou delírio. O sinal de alerta, nesses casos, é a coincidência temporal entre o início ou ajuste de uma medicação e a mudança de comportamento.
Etarismo leva à negligência
Um equívoco comum é associar doenças neurodegenerativas apenas à perda de memória – algo que, na prática, nem sempre acontece. “Alterações de humor, apatia, irritabilidade ou perda de filtros sociais podem surgir antes do comprometimento cognitivo mais evidente”, explica a geriatra Elen Cristina da Mata.
A colega Simone de Paula Pessoa Lima concorda: “Em muitas situações, a labilidade emocional (instabilidade e mudanças rápidas e intensas de humor) ou a desconfiança antecedem o esquecimento mais claro”. Esses sinais, diz, passam a merecer atenção especializada quando se tornam repetitivos, desproporcionais ao contexto ou quando começam a afetar a autonomia e o convívio social.
Se o alerta médico é claro, por que, então, a sociedade insiste em tratar essas mudanças como algo natural, quase esperado? As duas especialistas apontam para um fenômeno estrutural: o idadismo, fenômeno sociocultural que também atende por etarismo. “Durante muito tempo, comportamentos alterados no envelhecimento foram explicados com termos como ‘caduco’ ou ‘esclerosado’”, lembra Elen.
O problema se agrava porque a falta de informação, de acesso a exames e de profissionais especializados consolidou a ideia de que envelhecer é, inevitavelmente, perder o controle emocional e cognitivo. “Existe um mito de que ficar confuso, esquecido ou agressivo faz parte do pacote de envelhecer”, reforça Simone.
Naturalizar mudanças bruscas de humor é perigoso
Para as duas médicas geriatras, essa visão estereotipada, além de atrasar diagnósticos, gera sofrimento emocional. Isso porque, diz Elen da Mata, quando familiares interpretam irritabilidade como “birra” ou “mau humor”, tendem a reagir com impaciência, o que deteriora vínculos, aumenta conflitos e pode levar ao isolamento da pessoa idosa.
E o custo da negligência é alto. Do ponto de vista da saúde, diagnósticos tardios reduzem as chances de tratamento precoce e de preservação da autonomia. Do ponto de vista familiar, cresce o estresse do cuidador, muitas vezes sobrecarregado emocionalmente por não compreender o que está acontecendo. “Naturalizar essas mudanças é perigoso”, resume Elen. “Hoje sabemos que elas precisam ser investigadas, não apenas toleradas”, frisa.
Mas quando, exatamente, é hora de procurar ajuda? As especialistas são enfáticas: sempre que houver mudanças persistentes ou progressivas que representem um afastamento claro do padrão habitual da pessoa idosa. Ou seja, não basta apenas um episódio isolado de irritação, mas, sim, um conjunto de sinais que se repetem e impactam a vida cotidiana. “Quanto mais cedo essas mudanças são reconhecidas e investigadas, maiores são as chances de preservar qualidade de vida e relações familiares saudáveis”, afirma Elen.
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