Discutir jornada de trabalho é sempre necessário em uma democracia que se pretende justa e moderna. Mas discutir sem ouvir quem vive a economia no dia a dia é como construir ponte sem consultar o engenheiro. É teoria bonita no papel que, quando chega à vida real, desaba sob o próprio peso.
Eis que, em Brasília, alguns parlamentares dispersam boas intenções – ou vaidades políticas – na proposta de extinguir de vez a chamada escala 6x1. Sem diálogo, sem análise profunda e, acima de tudo, sem perceber o estrago que tal medida provocaria na já frágil economia brasileira.
A escala 6x1 existe porque em muitos setores da economia não há alternativa prática. Pequenos empreendimentos dependem de flexibilidade para manter portas abertas, produção em movimento e empregos genuínos em dia com pagamento e direitos. Grandes esferas públicas sabem disso – e já abandonaram há tempos a exigência dessa forma de jornada. Governos federais, estaduais e municipais não usam mais o 6x1. Mas querem agora impor ao setor privado uma regra que serve de receita para fechar empresas e abrir desemprego em larga escala.
É curioso como se discute jornada de trabalho como se o problema fosse apenas uma fórmula de horas e dias no papel. A realidade é muito mais complexa. Existem escalas 5x2, 12x36, trabalho por turno intermitente, banco de horas, regime com horas extras compensadas e uma infinidade de combinações que, quando bem negociadas entre empresa e empregado, funcionam sem horror nem exploração. A escala 6x1 é apenas uma dessas ferramentas, construída justamente para permitir que pequenas e médias empresas ajustem o fluxo de produção às demandas do mercado.
O problema não é a escala em si. O problema é a ignorância de quem pretende legislar sem discussão ampla com o setor produtivo. É a mania de entender a economia como um tabuleiro abstrato de peças que se movem por ordens virtuosas de cima para baixo.
A proposta de acabar com a escala 6x1 empurra muitos empresários, principalmente os pequenos, para a beira do abismo. Já não é segredo que o Brasil vive sob forte pressão econômica. Custos elevados, juros altos, carga tributária pesada e uma burocracia sufocante. Para muitos, a margem de sobrevivência é finíssima. Retirar da mesa uma escala que permitia negociar jornadas de forma flexível é como retirar o ar de quem tenta respirar.
E veja bem. Não estamos falando de trabalho sem cuidado ou sem direitos. Estamos falando de negociação e adaptação. São patrões e empregados que, na prática diária, ajustam expectativas, conciliam descanso, ajustam produção e sabem fechar a conta no fim do mês.
Tentar substituir isso por uma regra rígida sem escutar os protagonistas dessa relação é ignorar a economia real em nome de uma economia de gabinete.
A sociedade brasileira já cansou de ver leis perfeitas no papel e desastres na prática. Já vimos isso com reformas mal costuradas, com regulações feitas em salas fechadas e com impactos que explodem no bolso de quem menos pode pagar. A escala 6x1 não é um capricho. É uma solução adaptativa. Não é hora de jogar fora ferramentas úteis em nome de retórica bonita.
Se o debate é melhorar as condições de trabalho, avançar em qualidade de vida e garantir dignidade aos trabalhadores, que esse debate comece com boa vontade, dados reais e também diálogo franco entre empresários, empregados e os especialistas que vivem esse universo. Abandonar o 6x1 sem isso é um tiro na própria economia, é uma promessa de desemprego e de fechamento de pequenos negócios que sustentam comunidades inteiras.
Quem legisla pelo bem comum precisa, antes de tudo, conhecer o que está legislando. Do contrário, corre o risco de derrubar com uma canetada uma conquista que demorou anos para se manter em pé.
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